Se alguém perguntar qual foi o primeiro videogame da história, a resposta mais comum é Pong: aquele jogo de tênis de mesa pixelado da Atari. A segunda resposta mais comum é Pac-Man. Ambas estão erradas.
A história real começa muito antes, num laboratório de física em Nova York, em 1958. E envolve um físico entediado, um osciloscópio adaptado e uma fila de centenas de pessoas esperando para jogar numa exposição científica.
Mas antes de chegar lá, é preciso entender por que a pergunta "qual foi o primeiro videogame" não tem uma resposta simples, e por que isso torna a história ainda mais interessante.
O problema da definição
A dificuldade em responder "qual foi o primeiro videogame" começa com a própria definição da palavra. O que faz algo ser um videogame?
Se a resposta for "qualquer programa de computador com elemento de jogo", o título vai para o início dos anos 1950. Se for "qualquer coisa interativa exibida numa tela", chegamos a 1958. Se for "qualquer coisa comercializada ao público", vamos para 1971. Se for "o jogo que popularizou a indústria", chegamos ao Pong, de 1972.
Cada critério aponta para um candidato diferente. É por isso que historiadores de jogos ainda debatem o assunto, e por que a resposta honesta é: depende do que você chama de videogame.
O que dá para fazer é contar a história na ordem em que aconteceu.
1952: OXO: o jogo da velha num computador de universidade
O candidato mais antigo com alguma pretensão ao título é o OXO, criado em 1952 pelo estudante de doutorado Alexander Douglas na Universidade de Cambridge, na Inglaterra.
OXO era simplesmente um jogo da velha: o mesmo que você risca num papel. Mas rodava num computador chamado EDSAC e os resultados eram exibidos numa tela de tubo de raios catódicos. O jogador escolhia sua jogada usando um dial telefônico.
O problema que impede o OXO de ser o "primeiro videogame" oficial: foi criado como parte de uma tese de doutorado sobre interação humano-computador, nunca foi disponibilizado para o público e só existia num único computador no mundo. Era uma demonstração acadêmica, não um jogo no sentido que usamos hoje.
1958: Tennis for Two: o jogo criado num fim de semana para entreter visitantes
Em outubro de 1958, o físico William Higinbotham trabalhava como chefe da Divisão de Instrumentação do Laboratório Nacional de Brookhaven, em Nova York: um centro de pesquisa nuclear financiado pelo governo americano.
Todo ano, o laboratório abria as portas para o público durante alguns dias. E todo ano, Higinbotham ficava frustrado com a mesma coisa: as exposições eram estáticas, chatas e pouco interativas. Placas com textos, equipamentos atrás de vidros, nada que engajasse de verdade.
Em 1958, ele decidiu mudar isso. Levou cerca de três semanas para criar Tennis for Two: um jogo de tênis simples, exibido num osciloscópio (um equipamento de medição elétrica com uma tela circular). Dois jogadores usavam controles com um botão e um dial: o botão enviava a bola e o dial controlava o ângulo.
O resultado foi uma linha que subia e descia numa tela circular verde, representando uma bola de tênis quicando por cima de uma rede.
Parece pouco. Mas o efeito no público foi imediato: filas de centenas de pessoas esperando para jogar. Tennis for Two foi, de longe, a atração mais popular da exposição naquele ano, e no ano seguinte, quando Higinbotham o trouxe de volta com uma tela maior.
Depois disso, o jogo foi desmontado. Higinbotham nunca o patenteou: achava que não tinha inventado nada extraordinário, apenas adaptado tecnologias que já existiam. O jogo caiu no esquecimento por quase 25 anos, até ser redescoberto numa disputa judicial sobre patentes de videogames nos anos 1980.
Hoje, Tennis for Two é amplamente reconhecido como o primeiro videogame criado com o objetivo de entreter, e não de demonstrar tecnologia ou resolver problemas científicos.
1962: Spacewar!: o primeiro jogo a virar febre
Quatro anos depois de Tennis for Two, estudantes do MIT (Massachusetts Institute of Technology) criaram o que muitos historiadores consideram o primeiro videogame no sentido moderno: Spacewar!
Steve Russell liderou o projeto: um grupo de estudantes apaixonados por ficção científica que queriam criar algo que mostrasse o potencial dos computadores de forma divertida. O resultado foi um jogo de combate espacial para dois jogadores: cada um controlava uma nave tentando destruir a outra enquanto desviava da gravidade de uma estrela no centro da tela.
O que tornava o Spacewar! diferente de tudo que veio antes:
- Rodava num computador PDP-1, relativamente acessível para os padrões da época
- Tinha física real: a gravidade da estrela afetava o movimento das naves
- Era genuinamente divertido e viciante: estudantes passavam horas jogando
- Espalhou-se rapidamente por universidades americanas, copiado de computador em computador
O Spacewar! nunca foi comercializado: existia apenas em computadores de universidades. Mas influenciou diretamente todos os jogos que vieram depois. Nolan Bushnell, o fundador da Atari, jogou Spacewar! numa universidade e ficou obcecado com a ideia de criar jogos comerciais.
1971: Galaxy Game e Computer Space: os primeiros a cobrar pela diversão
Em 1971, dois jogos disputaram o título de primeiro videogame operado por moedas, ou seja, o primeiro onde você pagava para jogar.
Galaxy Game, lançado em setembro de 1971 na Universidade de Stanford, era basicamente uma versão de Spacewar! numa máquina dedicada. Custava 10 centavos por partida. Os estudantes faziam fila para jogar. Ficou instalado na universidade até 1979.
Computer Space, lançado em novembro de 1971, foi criado pelo próprio Nolan Bushnell: inspirado, como esperado, no Spacewar!. Era mais bonito que o Galaxy Game e chegou a ser distribuído comercialmente. Mas tinha um problema: era difícil demais para o público geral. As pessoas não entendiam os controles e desistiam. As vendas foram fracas.
Bushnell não desistiu. Saiu da parceria que havia criado para o Computer Space e fundou uma nova empresa em 1972, com um nome inspirado num termo do jogo de Go japonês.
Ele a chamou de Atari.
1972: Pong: o jogo que criou a indústria
O primeiro projeto da Atari foi simples por design. Bushnell havia aprendido com o fracasso do Computer Space: o jogo precisava ser tão intuitivo que qualquer pessoa entendesse em segundos.
Ele contratou um engenheiro chamado Allan Alcorn e deu uma tarefa de treinamento: criar um jogo de tênis de mesa. Alcorn criou o Pong: dois retângulos controlados pelos jogadores, uma bolinha que quicava entre eles, e um placar numérico simples.
O primeiro protótipo foi instalado num bar em Sunnyvale, Califórnia. Duas semanas depois, o dono do bar ligou para a Atari com uma reclamação: a máquina tinha parado de funcionar. Quando os técnicos foram verificar, descobriram o problema: a caixa que coletava as moedas estava tão cheia que estava bloqueando o mecanismo.
O Pong virou febre. Em meses, estava instalado em bares e fliperamas por todo os Estados Unidos. A Atari fabricou mais de 8.000 unidades do Pong arcade. A indústria de videogames havia nascido de verdade.
1975-1977: o console doméstico e a revolução do sofá
Com o sucesso do Pong nas máquinas de fliperama, a pergunta natural era: como levar isso para a sala de estar?
A Atari lançou uma versão doméstica do Pong em 1975, vendida exclusivamente nas lojas Sears nos Estados Unidos. Vendeu 150.000 unidades no primeiro Natal.
Mas o verdadeiro salto veio em 1977, com o lançamento do Atari 2600: o primeiro console doméstico de sucesso com cartuchos intercambiáveis. Em vez de comprar uma máquina diferente para cada jogo, você comprava um único console e trocava os cartuchos.
O Atari 2600 vendeu mais de 30 milhões de unidades ao longo de sua vida útil. Jogos como Space Invaders, Pac-Man e Adventure (onde Warren Robinett escondeu o primeiro easter egg da história) chegaram às salas de estar do mundo inteiro.
A indústria que tinha começado num osciloscópio em 1958 agora valia bilhões de dólares.
O que aconteceu com William Higinbotham?
O físico que criou o Tennis for Two nunca se considerou o inventor dos videogames. Quando perguntado sobre o assunto, respondia com bom humor que havia coisas mais importantes que seu jogo de tênis num osciloscópio: como o papel que teve no desenvolvimento de sistemas de controle de armas nucleares, área em que trabalhou por décadas.
Higinbotham foi um dos fundadores da Federation of American Scientists, organização criada por físicos que trabalharam no Projeto Manhattan e queriam promover o uso pacífico da ciência. Passou boa parte de sua vida defendendo o desarmamento nuclear.
Ele morreu em 1994, aos 84 anos. O jogo que criou num fim de semana de 1958 para entretenimento de visitantes de laboratório é hoje reconhecido como uma das peças fundadoras de uma indústria que, em 2026, movimenta mais de 200 bilhões de dólares por ano: mais do que o cinema e a música somados.
A linha do tempo resumida
Para quem quer a versão rápida de como chegamos dos osciloscópios aos consoles modernos:
- 1952: OXO: jogo da velha numa tela de computador universitário. Demonstração acadêmica, nunca público.
- 1958: Tennis for Two: primeiro jogo criado para entreter o público. Nunca comercializado.
- 1962: Spacewar!: primeiro jogo popular, espalhou-se por universidades. Nunca comercializado.
- 1971: Galaxy Game e Computer Space: primeiros jogos operados por moedas. Sucesso limitado.
- 1972: Pong: primeiro jogo a virar fenômeno comercial. Nascimento da indústria.
- 1975: Pong doméstico: primeiro console de sucesso para a sala de estar.
- 1977: Atari 2600: primeiro console com cartuchos intercambiáveis. A era moderna começa.
E o Pac-Man? E o Mario?
Para completar o quadro das perguntas frequentes:
Pac-Man foi lançado em 1980 pela Namco no Japão. Foi o primeiro jogo a ter um personagem com personalidade reconhecível e o primeiro a atrair um público feminino em grande número. Quebrou todos os recordes de fliperama da época, mas veio quase 30 anos depois do OXO.
Mario apareceu pela primeira vez em 1981, no jogo Donkey Kong, como um personagem sem nome chamado apenas "Jumpman". Só ganhou o nome Mario em Donkey Kong Junior (1982) e seu próprio jogo: Mario Bros.: em 1983. O Super Mario Bros. que salvou a indústria depois do colapso de 1983 veio em 1985.
A história dos videogames tem mais de 70 anos, começa numa tela circular verde num laboratório de física, e ainda está sendo escrita.