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Ilustração principal do artigo: Quem inventou o mouse de computador: a história do homem que queria ampliar o intelecto humano

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Quem inventou o mouse de computador: a história do homem que queria ampliar o intelecto humano

Mouse Tec 11 min de leitura

Em 1945, um engenheiro chamado Vannevar Bush publicou um artigo na revista The Atlantic descrevendo uma máquina hipotética chamada Memex: uma mesa com visor onde uma pessoa poderia armazenar livros, registros e comunicações, consultáveis em segundos. Não era uma máquina de calcular. Era um amplificador da memória humana.

Um jovem técnico de radar da Marinha americana leu esse artigo num navio, no Pacífico, durante a Segunda Guerra Mundial. E decidiu que ia construir aquilo.

Seu nome era Douglas Engelbart. E o que ele construiu mudou para sempre a forma como você usa um computador: incluindo o dispositivo que provavelmente está na sua mesa agora.

O problema que Engelbart queria resolver

Douglas Carl Engelbart nasceu em 30 de janeiro de 1925 em Portland, Oregon. Depois da guerra, formou-se em engenharia elétrica pela Oregon State University e foi trabalhar na NASA. Tinha emprego estável, carreira promissora, noiva. Tudo certo.

Mas em 1950, numa tarde de carro indo encontrar a noiva, ele teve o que descreveria depois como uma espécie de visão. Não religiosa: técnica. Ele percebeu que os problemas mais urgentes do mundo (guerras, doenças, pobreza, crises) eram todos problemas de complexidade. E que o limite da capacidade humana de lidar com essa complexidade era o limite do próprio intelecto humano.

A conclusão que tirou: se fosse possível ampliar o intelecto humano com tecnologia (tornar as pessoas mais capazes de pensar, colaborar e resolver problemas complexos) isso seria a contribuição mais valiosa que alguém poderia dar ao mundo.

Engelbart largou o emprego na NASA. Voltou para a universidade. E passou os vinte anos seguintes tentando construir essa ideia.

O laboratório onde o futuro foi inventado

Em 1963, Engelbart estabeleceu o Augmentation Research Center (ARC) no Stanford Research Institute: hoje SRI International. O nome do laboratório dizia tudo: centro de pesquisa em augmentation, ampliação. Não automação, não substituição. Ampliação.

O objetivo era desenvolver hardware e software para tornar a interação entre pessoas e computadores mais intuitiva, mais poderosa e mais colaborativa. Em 1963, isso significava partir praticamente do zero: a maioria dos computadores ainda operava via cartões perfurados. Não havia cursores. Não havia cliques. Não havia janelas.

O mouse surgiu nesse contexto: não como o objetivo principal, mas como uma solução para um problema específico: como mover um cursor numa tela de forma mais eficiente do que com os teclados e canetas ópticas disponíveis na época.

A caixa de madeira com cauda

Em 1964, o engenheiro Bill English (chefe de laboratório de Engelbart) construiu o primeiro protótipo funcional baseado nos esboços do inventor.

Era um bloco de madeira de mogno. Aproximadamente 7 por 10 centímetros. Na base, duas rodas perpendiculares de metal que detectavam movimento nos eixos X e Y. No topo, um único botão vermelho. Na traseira, um cabo que saía parecendo uma cauda.

Alguém no laboratório olhou para aquilo e disse: "parece um mouse".

O nome formal do dispositivo era "Indicador de Posição X-Y para Sistemas com Display": título que constava na patente registrada em 1967 e concedida em 17 de novembro de 1970. O apelido informal de laboratório foi o que sobreviveu.

Engelbart nunca recebeu royalties pela invenção. A patente pertencia ao SRI, e expirou antes que o mouse se tornasse um produto de massa.

9 de dezembro de 1968: a mãe de todas as demonstrações

O mouse sozinho não teria chegado a lugar nenhum sem o que aconteceu em 9 de dezembro de 1968, numa segunda-feira chuvosa em San Francisco.

Engelbart subiu ao palco do Fall Joint Computer Conference com um headset, uma câmera, um teclado, um mouse e uma conexão de vídeo com seu laboratório em Menlo Park, a 50 quilômetros de distância. Durante 90 minutos, diante de mil engenheiros e pesquisadores da área, ele demonstrou ao vivo:

  • Um editor de texto colaborativo onde dois usuários em locais diferentes editavam o mesmo documento em tempo real
  • Hiperlinks: textos clicáveis que levavam a outros documentos
  • Videoconferência
  • Uma interface gráfica com janelas
  • E o mouse, controlando um cursor numa tela com precisão nunca vista

A plateia ficou em silêncio. Depois, de pé, aplaudiu.

Tudo que Engelbart demonstrou naquele dia levaria décadas para chegar ao consumidor final. Mas estava tudo ali, funcionando, em 1968. A apresentação ficou conhecida como "a mãe de todas as demonstrações": a mais influente da história da computação.

Como o mouse chegou ao mundo: Xerox, Apple e Microsoft

Depois da demonstração de 1968, o ARC de Engelbart continuou desenvolvendo o mouse e a interface gráfica. Mas foi outra empresa que primeiro viu o potencial comercial da ideia.

No início dos anos 1970, engenheiros do Xerox PARC visitaram o laboratório de Engelbart e ficaram impressionados. Desenvolveram sua própria versão do mouse e da interface gráfica, e em 1981 lançaram o Xerox Star, o primeiro computador comercial com mouse e interface gráfica.

O Star era caro demais para o mercado de massa. Mas em 1979, Steve Jobs também visitou o PARC (numa visita negociada em troca de ações da Apple) e voltou com as mesmas ideias na cabeça.

Em 1983, a Apple lançou o Lisa, o primeiro computador da empresa com mouse. Era caro e não decolou. Em 1984, chegou o Macintosh: desta vez com preço acessível, campanha publicitária histórica e um mouse de um único botão que se tornaria o padrão da empresa por décadas.

Naquele mesmo ano de 1983, a Microsoft lançou seu próprio mouse e tornou o Word compatível com o dispositivo. Foi o primeiro hardware para usuários finais comercializado pela empresa de Bill Gates. Em 1985, chegou o Windows 1.0, e com ele, o mouse chegou definitivamente aos PCs.

A evolução do dispositivo

Do bloco de madeira de mogno de 1964 até os mouses de hoje, o dispositivo passou por transformações radicais:

  • Anos 1970–80: primeiros modelos com esferas de borracha na base, substituindo as rodas de metal originais
  • Anos 1990: popularização dos mouses de dois e três botões; surgimento do scroll wheel, patenteado pela Microsoft em 1999
  • Anos 1999–2000: Logitech e Microsoft lançam os primeiros mouses ópticos, eliminando a esfera mecânica
  • Anos 2000: chegada dos mouses sem fio via Bluetooth e RF
  • Anos 2010: mouses com sensores laser de alta precisão voltados para gamers; modelos ultraleves e ergonômicos
  • Hoje: mouses com até 30.000 DPI de sensibilidade, carregamento sem fio por indução e personalização de peso

O que Engelbart nunca viu ser reconhecido em vida

Douglas Engelbart passou décadas sendo amplamente ignorado pela indústria que sua pesquisa ajudou a criar. O ARC perdeu financiamento no final dos anos 1970. Engelbart saiu, foi para outras empresas, e viu suas ideias serem implementadas por outros: sem crédito, sem royalties, sem reconhecimento público proporcional à contribuição.

Apenas em 1997, aos 72 anos, recebeu o Prêmio Turing (o Nobel da computação) por sua visão inspiradora do futuro da computação interativa. Em 2000, recebeu a Medalha Nacional de Tecnologia e Inovação das mãos do presidente Bill Clinton.

Engelbart faleceu em 2 de julho de 2013, em Atherton, California, aos 88 anos. Na nota de falecimento publicada pelo SRI International havia uma frase simples: "Doug queria mudar o mundo. E mudou."

O mouse que está na sua mesa agora

Provavelmente você está lendo este texto com um mouse ao alcance da mão, ou já o usou hoje para chegar até aqui. É um dos dispositivos mais comuns do planeta, tão familiar que se tornou invisível.

Mas em algum momento dos anos 1960, um engenheiro com uma missão improvável (ampliar o intelecto humano) entrou num laboratório em Stanford com esboços numa prancheta e saiu com uma caixinha de madeira que mudaria a história da computação.

O nome que alguém deu àquela caixinha naquele dia de 1964 é o mesmo que você lê no nome deste site.

Não é coincidência que seja fascinante.

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