Em 1999, um jovem de 25 anos sentou na sua mesa no Japão com uma grade de 12 por 12 pixels e um prazo de cinco semanas. Sua tarefa: criar um conjunto de ícones pequenos o suficiente para caber numa tela de celular, mas expressivos o suficiente para substituir palavras.
Ele entregou 176 desenhos feitos à mão. Pesavam 3 kilobytes no total.
Vinte e cinco anos depois, existem mais de 3.600 emojis usados bilhões de vezes por dia em todo o planeta. O nome desse jovem é Shigetaka Kurita — e a maioria das pessoas que usa emojis nunca ouviu falar nele.
Antes dos emojis: o problema das mensagens sem emoção
Para entender por que os emojis foram criados, é preciso voltar ao Japão dos anos 1990 — um país onde os pagers, chamados localmente de Pocket Bell, eram uma febre entre os adolescentes.
Os pagers permitiam troca de mensagens curtas de texto. E aí estava o problema: texto puro é ambíguo. Uma mensagem como "tudo bem" pode ser resposta entusiasmada ou resposta fria de quem está irritado — e o receptor não tem como saber qual das duas é.
Os japoneses já tinham uma solução parcial para isso: os kaomoji — combinações criativas de caracteres de texto para expressar emoções, como (´。• ᵕ •。)ouヽ(´▽`)/`. Funcionavam, mas eram trabalhosos de digitar e difíceis de ler rapidamente.
A NTT DoCoMo, maior operadora de telefonia do Japão, estava lançando um novo serviço de internet móvel chamado i-mode e queria uma forma mais eficiente de comunicação visual. Foi aí que Kurita entrou.
Shigetaka Kurita e os 176 pixels que mudaram a comunicação
Shigetaka Kurita nasceu em 9 de maio de 1972 na Prefeitura de Gifu, no Japão. Em 1999, trabalhava como designer de interface na NTT DoCoMo quando recebeu a missão de criar um conjunto de ícones para o i-mode.
As restrições eram severas: cada ícone precisava caber numa grade de 12 por 12 pixels — uma área minúscula, menor que a maioria das letras que você está lendo agora. A paleta de cores era limitada. A memória disponível, mínima.
Kurita foi buscar inspiração em lugares variados: nos mangás japoneses (com sua tradição de expressar emoções através de símbolos visuais), nos pictogramas usados em placas e sinalização, nas previsões meteorológicas dos jornais (que há décadas usavam ícones de sol, nuvem e chuva) e até nas expressões faciais exageradas dos personagens de anime.
O resultado foram 176 ícones cobrindo um espectro surpreendentemente amplo:
- Expressões faciais e emoções
- Condições climáticas (sol, chuva, neve, nublado)
- Objetos do cotidiano
- Comidas
- Transportes
- Símbolos de comunicação
- Um coração — que se tornaria o emoji mais reconhecível do mundo
Tudo pronto em cinco semanas. Tudo pesando 3 kilobytes no total.
Por que se chama "emoji" — e não tem nada a ver com "emotion"
Aqui mora um dos maiores equívocos sobre o assunto: muita gente acha que "emoji" vem de "emotion" + "icon". É um erro compreensível — mas errado.
Emoji (絵文字) é uma palavra japonesa formada por três kanjis:
- 絵 (e) — imagem, figura
- 文 (mo) — escrita
- 字 (ji) — caractere
Emoji significa literalmente "caractere de imagem" ou "figura escrita". A semelhança sonora com "emotion" em inglês é pura coincidência — e uma coincidência muito feliz para a adoção global da palavra.
Do Japão para o mundo: a longa jornada até o Unicode
Por alguns anos, os emojis ficaram presos no Japão.
O conjunto de Kurita foi lançado em 1999 exclusivamente para o i-mode da NTT DoCoMo. Outras operadoras japonesas, como SoftBank e KDDI, criaram seus próprios conjuntos de emojis — incompatíveis entre si. Um emoji enviado por um celular da DoCoMo podia aparecer como símbolo estranho num celular da SoftBank.
Quando a Apple lançou o primeiro iPhone em 2007, o dispositivo não tinha suporte a emojis. No Japão, isso foi um problema — os usuários japoneses estavam acostumados com ícones e a ausência deles gerou reclamações. A Apple resolveu o problema incluindo um teclado de emojis escondido no iPhone para o mercado japonês — ativável apenas por quem soubesse o caminho nas configurações.
A grande virada veio em 2010, quando o Consórcio Unicode — organização responsável por padronizar a representação de texto em todos os computadores e dispositivos do mundo — incluiu emojis no padrão Unicode 6.0. Pela primeira vez, os mesmos emojis podiam ser enviados e recebidos em qualquer plataforma, sistema operacional ou dispositivo.
Naquele momento, o conjunto inicial saltou de 176 para 722 emojis.
A Apple que popularizou — e o Android que democratizou
Com o Unicode resolvendo a compatibilidade, faltava alguém popularizar os emojis fora do Japão.
Em 2011, a Apple lançou o iOS 5 com um teclado de emojis disponível para todos os usuários — não só os japoneses. Foi o gatilho. Adolescentes americanos e europeus descobriram os ícones e a adoção explodiu.
Em 2012, o Android seguiu o mesmo caminho. A partir daí, os emojis deixaram de ser uma curiosidade japonesa e viraram linguagem global.
Cada plataforma passou a desenhar seus próprios emojis — o que criou uma situação curiosa: o mesmo emoji pode ter aparências bem diferentes dependendo de onde você o vê. O famoso 😂 (rosto com lágrimas de alegria) é razoavelmente parecido entre plataformas, mas alguns emojis de comida, animais ou objetos variam tanto que parecem ícones completamente diferentes.
Quantos emojis existem hoje?
O Unicode publica uma nova versão do padrão periodicamente, sempre adicionando emojis. A evolução é impressionante:
- 1999: 176 emojis (conjunto original de Kurita)
- 2010: 722 emojis (entrada no Unicode)
- 2015: cerca de 1.280 emojis
- 2020: mais de 3.300 emojis
- Hoje: mais de 3.600 emojis aprovados pelo Unicode
Cada novo lote passa por um processo formal de aprovação: qualquer pessoa pode submeter uma proposta ao Consórcio Unicode, que avalia critérios como frequência de uso esperada, distinção visual de emojis existentes e utilidade para comunicação.
Alguns emojis foram aprovados facilmente. Outros geraram debates longos — como a inclusão de emojis de casais do mesmo sexo, de diferentes tons de pele e de símbolos religiosos de várias tradições.
Os emojis no MoMA — de novo
Os originais 176 emojis de Shigetaka Kurita estão na coleção permanente do Museu de Arte Moderna de Nova York desde 2016 — o mesmo MoMA que em 2010 adquiriu o símbolo @ para sua coleção.
A curadoria do MoMA reconheceu os ícones como obra de design significativa: objetos funcionais que resolveram um problema real de comunicação e, no processo, criaram uma nova forma de expressão visual usada por bilhões de pessoas.
Kurita, hoje com mais de 50 anos, trabalha para a Dwango Co. Ltd., empresa japonesa de jogos. Quando perguntado qual emoji ele nunca criou mas gostaria de ter feito, a resposta é sempre a mesma: o coco. Seus superiores na DoCoMo disseram que não era uma boa ideia.
O coco hoje existe no Unicode. Código: 🥥.
O emoji mais usado do mundo
Desde 2021, o título de emoji mais usado globalmente pertence ao 😂 — rosto com lágrimas de alegria. Segundo dados do Consórcio Unicode, ele representa sozinho cerca de 5% de todos os emojis enviados no mundo.
No Brasil, o ranking costuma incluir também ❤️, 🥰, 😭 e 🙏 — as mãos juntas, que no Japão tem conotação de agradecimento e prece, mas no Brasil é usado quase universalmente como pedido ou súplica.
O emoji favorito de Kurita, o criador de tudo isso? O coração. Pelo significado positivo, segundo ele. O mesmo ícone que começou como um pictograma num pager japonês nos anos 1990 e hoje é enviado bilhões de vezes por dia em todos os idiomas e culturas do planeta.
Uma linguagem de 12 pixels
Poucas invenções da era digital têm uma origem tão específica e ao mesmo tempo um alcance tão universal. Um jovem designer japonês, uma grade minúscula de pixels, cinco semanas de trabalho — e o resultado é uma linguagem que cruza fronteiras de idioma, cultura e geração.
Na próxima vez que você mandar um 😂 ou um ❤️, você está usando algo que começou na mesa de Shigetaka Kurita em 1999. Em 3 kilobytes. Num teclado de celular que hoje não existiria mais em nenhum museu de tecnologia.
Exceto, claro, no MoMA.