Você digita esse símbolo dezenas de vezes por dia. Ele aparece no seu e-mail, no seu @ do Instagram, nas menções do WhatsApp e em praticamente toda comunicação digital que existe. É tão comum que virou invisível.
Mas o @ tem mais de 500 anos de história — e a decisão que o transformou no ícone da internet foi tomada em segundos, por um engenheiro que precisava escolher um caractere qualquer num teclado.
Essa é a história de como um símbolo medieval chegou até você.
Antes da internet: o @ na Idade Média
A origem exata do símbolo é um dos pequenos mistérios da história. Há pelo menos três teorias que competem entre si — e nenhuma foi definitivamente provada.
A mais aceita é que monges copistas medievais europeus criaram o símbolo como abreviação da preposição latina ad, que significa "para" ou "em direção a". Na Idade Média, copiar manuscritos à mão era um trabalho exaustivo, e os escribas desenvolveram centenas de abreviações para economizar tempo e espaço no pergaminho. O @ seria uma forma rápida de escrever o a cursivo com o d enrolado ao redor — que, com o tempo, perdeu a haste e virou o caracol que conhecemos hoje.
A segunda teoria aponta para comerciantes espanhóis e portugueses que usavam o símbolo como unidade de medida — a arroba, equivalente a aproximadamente 15 quilogramas. A palavra vem do árabe ar-rubʿ, que significa "quarta parte". Documentos comerciais do século XV já registram o uso do @ nesse sentido.
A terceira teoria é a mais antiga de todas: um documento búlgaro de 1345, tradução de uma crônica grega, usa o @ como substituto da letra "A" na palavra "Amém". Por que foi usado nesse contexto específico é, até hoje, um mistério. O documento original está guardado na Biblioteca Apostólica do Vaticano.
O primeiro registro datado: Florença, 1536
O registro mais antigo e bem documentado do símbolo aparece em uma carta comercial datada de 4 de maio de 1536, escrita pelo comerciante florentino Francesco Lapi.
Na carta, Lapi usava o @ para se referir a ânforas de vinho enviadas da Espanha — no sentido comercial de "ao preço de". Era uma notação contábil comum na época: "10 ânforas @ 3 ducados cada" significava que cada ânfora custava 3 ducados.
Esse uso comercial sobreviveu por séculos. Em inglês, "at" preservou exatamente esse sentido: "5 apples @ $1 each" — 5 maçãs a 1 dólar cada.
Do pergaminho ao teclado
Com o surgimento das máquinas de escrever nos anos 1870, o @ foi incorporado ao teclado como símbolo comercial padrão. A primeira máquina de escrever comercializada em escala, a Remington No. 1, chegou ao mercado americano em 1874 — e o @ já estava lá.
Quando os primeiros computadores foram desenvolvidos, seus teclados herdaram o layout das máquinas de escrever — e o @ veio junto, quase por inércia. Durante décadas, ficou ali, raramente usado, ocupando espaço num teclado cheio de caracteres mais populares.
Até 1971.
Ray Tomlinson e a decisão de segundos
Em 1971, Ray Tomlinson era engenheiro na BBN Technologies, empresa contratada pelo Departamento de Defesa americano para desenvolver a ARPANET — a rede precursora da internet.
Tomlinson estava trabalhando num problema específico: como enviar mensagens entre computadores diferentes conectados à rede? A solução que ele desenvolveu exigia um endereço com duas partes: o nome do usuário e o nome do computador onde esse usuário estava. Precisava de um símbolo para separar essas duas partes — um caractere que não aparecesse em nomes de pessoas nem em nomes de sistemas, para que os computadores não se confundissem.
Tomlinson olhou para o teclado. O @ estava ali, praticamente sem uso. Representava "em" — e era exatamente isso que ele precisava: "fulano em tal máquina".
A escolha foi feita em segundos. tomlinson@bbn-tenexa — esse foi o formato do primeiro endereço de e-mail da história.
A primeira mensagem enviada por Tomlinson para si mesmo pela ARPANET foi, segundo ele próprio, algo completamente irrelevante — provavelmente "QWERTYUIOP" ou algo parecido, só para testar se funcionava. Ele não guardou o conteúdo. Achou que não tinha importância.
Por que se chama "arroba" no Brasil — e outros nomes pelo mundo
Em inglês, o símbolo é chamado de "at sign" — o sinal de "em". Faz sentido: "user@domain" se lê "user at domain".
Mas em outros idiomas, o símbolo ganhou nomes completamente diferentes, muitas vezes inspirados pelo formato visual do caracol:
- Italiano: chiocciola — caracol
- Alemão: Klammeraffe — macaco-grampo
- Russo: sobaka — cachorro
- Finlandês: kissanhäntä — rabo de gato
- Holandês: apenstaartje — rabinho de macaco
- Taiwanês: 小老鼠 (xiǎo lǎoshǔ) — ratinho
No Brasil e em Portugal, herdamos o nome espanhol arroba — a unidade de medida de peso que os comerciantes ibéricos já associavam ao símbolo desde o século XV. Quando o e-mail chegou, o nome já estava na memória coletiva.
Do e-mail para as redes sociais
Durante os anos 1970, 80 e 90, o @ foi exclusivo dos endereços de e-mail. Bilhões de pessoas aprenderam a associar o símbolo à comunicação digital — mas ainda era um elemento técnico, não cultural.
Isso mudou em 2006, quando o Twitter foi lançado. A plataforma adotou o @ como forma de mencionar outros usuários — @fulano — e a convenção se espalhou rapidamente para todas as outras redes sociais. Instagram, Facebook, TikTok, LinkedIn — em todas elas, o @ virou o gesto digital de "chamar alguém pelo nome".
O símbolo que Ray Tomlinson escolheu por exclusão — porque era o menos usado — se tornou um dos mais digitados do mundo.
O @ no Museu de Arte Moderna de Nova York
Em 2010, o Departamento de Arquitetura e Design do MoMA — o Museu de Arte Moderna de Nova York — adquiriu o símbolo @ para sua coleção permanente.
Não um objeto físico. O símbolo em si.
A curadora Paola Antonelli justificou a aquisição argumentando que o @ era um exemplo perfeito de design funcional: um caractere que existia há séculos, foi reproposto para um novo contexto sem nenhuma alteração visual, e se tornou o elemento mais reconhecível da comunicação digital global.
O símbolo que não precisou mudar
O @ sobreviveu a manuscritos medievais, ao comércio renascentista, à era das máquinas de escrever, à revolução dos computadores e à explosão das redes sociais — sempre com a mesma forma, sempre com o mesmo núcleo de significado: em, para, localizado em.
Meio milênio depois de Francesco Lapi usá-lo numa carta comercial em Florença, você digita esse mesmo símbolo para mandar uma mensagem, marcar um amigo ou enviar um e-mail.
Algumas invenções envelhecem. Outras, simplesmente, continuam fazendo sentido.